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Lágrima e amores






         Quando no espaço bruxoleia a aurora,
         Mandando à terra divinais palores,
         O doce orvalho, que nos campos chora,
                   São lágrimas e amores.

         Nas frescas tardes, nas manhãs de maio,
         Que aqui renascem, que ali brotam flores,
         Quando chorarem, o seu pranto amai-o,
                   São lágrimas e amores.

         Amai-o; as flores também têm segredos,
         Sim, vivem, morrem, têm sorriso e dores;
         Vede esse pranto, decifrai enredos,
                   São lágrimas e amores.

         Quando, transpondo do horizonte a corda,
         O sol se despe dos gentis fulgores,
         Brancas estrelas de que o céu se borda,
                   São lágrimas e amores.

         Quando na campa, que o cipreste esguio
         Com a sombra cobre de enlutadas cores,
         Chorarem brisas, que acordou o estio,
                   São lágrimas e amores.

         Quando o arco-íris lá no céu se arqueia;
         Para, chovendo, refecer calores,
         Esses gotejos por que o sol anseia,
                   São lágrimas e amores.

         Quando, por noites de luar ameno,
         O céu se esmalta de cem mil primores,
         Esses rorejos do sutil sereno
                   São lágrimas e amores.

         Quando branquejam, de manhã, neblinas,
         Cobrindo os campos, o que são? – vapores,
         Que o pranto gera das canções divinas,
                   São lágrimas e amores.

         Cristáleas águas, que o Amazona atira
         Nas nossas terras a trajar verdores,
         E os sons cadentes, que eu na mata ouvira,
                   São lágrimas e amores.

         As níveas pérolas de nitente alvura,
         Que a fonte clara salpicou nas flores,
         Serão segredos de amorosa jura?
                   São lágrimas e amores.

Pedro de Calazans

Leia A visão da época:http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

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