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Escuta





        

 Se para amar-te for mister martírios,
         Com que delírios saberei sofrer!
         Se de altas glórias for mister a palma,
         Talvez minha alma possa além colher.

         Quebrar cadeias, conquistar um nome,
         Que não consome o perpassar das eras;
         Arcar com a fúria de iracundos nortes,
         Sofrer mil mortes, sem morrer deveras;

         Nas próprias carnes apertar cilícios,
         Nos sacrifícios ter sereno o rosto;
         Pisar descalço sobre espinhos duros,
         Com pés seguros, com sinais de gosto;

         Longe da pátria, no país mais feio,
         De tédio em meio, para amar-te, irei
         Viver embora sob a zona ardente,
         E ali contente por te amar serei!...

         E a ser amado, se é mister o incenso,
         Que sobe denso dos salões aos tetos;
         Serei altivo, mas não vou de rastos,
         Com lábios castos mendigar agetos!

         E se me odeias, por não ir-me às salas
         Dizer-te as falas de mendaz paixão,
         E, aos olhos de outros, profanando extremos,
         Dizer-te: amemos, e apertar-te a mão;

         Me  odeia, e muito, que eu não sou da farsa,
         Que o mal disfarça, que desfruta e ri!
         Me odeia, e sempre, que eu não desço ao nível
         Do pó terrível, que se arraste aí!

         Dá-me o teu ódio, pois não quero – escuta –
         Beber cicuta, procurando mel,
         Dá-me o teu ódio, mas num grau subido,
         Embora ungido de amargoso fel!

         Dá-me o teu ódio por fatal sentença
         A indiferença me será pior.
         Que um sentimento por mim sintas n’alma,
         Dá-me essa palma de um sofrer melhor!

Pedro de Calazans

Leia A visão da época:http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

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