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Névoas

Nas horas tardias que a noite desmaia Que rolam na praia mil vagas azuis, E a lua cercada de pálida chama Nos mares derrama seu pranto de luz, Eu vi entre os flocos de névoas imensas, Que em grutas extensas se elevam no ar, Um corpo de fada — sereno, dormindo, Tranqüila sorrindo num brando sonhar. Na forma de neve — puríssima e nua — Um raio da lua de manso batia, E assim reclinada no túrbido leito Seu pálido peito de amores tremia. Oh! filha das névoas! das veigas viçosas, Das verdes, cheirosas roseiras do céu, Acaso rolaste tão bela dormindo, E dormes, sorrindo, das nuvens no véu? O orvalho das noites congela-te a fronte, As orlas do monte se escondem nas brumas, E queda repousas num mar de neblina, Qual pérola fina no leito de espumas! Nas nuas espáduas, dos astros dormentes — Tão frio — não sentes o pranto filtrar? E as asas, de prata do gênio das noites Em tíbios açoites a trança agitar? Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo De um férvido beijo gozares em vão!... Os astros sem ...

Resíduo

Palavras brotaram desconexas e esparsas. Sua seiva era de lágrimas. Incompreensível. E rosas são as que ficaram fenecendo em meus jardins de pasmo. Caules se inclinam, se adelgaçam no crescer, no confiar. Verde-tenro se quebram, estalando leve, choram seiva. Navios se afastam do cais e brechas surgem onde o corpo afunda nutrindo vazios. De tudo que fomos de caules, de pequenas pedras, de penugem; de tudo que fomos de sutil e tênue, de troca de pólen e seiva, de pequena ternura; de tudo que fomos de fremir de abelhas, de corola e aquiescência e espanto, resta esse campo desolado na manhã coberto de geada e assombro. Lúcia Fonseca Leia A visão da época:  http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

Certeza

De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando... A certeza de que precisamos continuar... A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar... Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo... Da queda um passo de dança... Do medo, uma escada... Do sonho, uma ponte... Da procura, um encontro... Fernando Sabino Leia A visão da época:  http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

Um dia, um adeus

Um Dia, Um Adeus Só você prá dar A minha vida direção O tom, a cor Me fez voltar a ver a luz Estrela no deserto a me guiar Farol no mar, da incerteza... Um dia um adeus E eu indo embora Quanta loucura Por tão pouca aventura... Agora entendo Que andei perdido O que é que eu faço Prá você me perdoar... Ah! que bom seria Se eu pudesse te abraçar Beijar, sentir Como a primeira vez Te dar o carinho Que você merece ter E eu sei te amar Como ninguém mais... Ninguém mais Como ninguém Jamais te amou Ninguém jamais te amou Te amou... Ninguém mais Como ninguém Jamais te amou Ninguém jamais te amou Como eu, como eu... Guilherme Arantes Leia A visão da época:  http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

A verdadeira amizade

Pode ser que um dia deixemos de nos falar... Mas, enquanto houver amizade, Faremos as pazes de novo. Pode ser que um dia o tempo passe... Mas, se a amizade permanecer, Um de outro se há-de lembrar. Pode ser que um dia nos afastemos... Mas, se formos amigos de verdade, A amizade nos reaproximará. Pode ser que um dia não mais existamos... Mas, se ainda sobrar amizade, Nasceremos de novo, um para o outro. Pode ser que um dia tudo acabe... Mas, com a amizade construiremos tudo novamente, Cada vez de forma diferente. Sendo único e inesquecível cada momento Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre. Há duas formas para viver a sua vida: Uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre. Albert Einstein Leia A visão da época:   http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado. É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo. Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano. O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica... Vinicius de Moraes Leia A visão da época:  http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/

A primeira lágrima

Quando a primeira lágrima caindo, pisou a face da mulher primeira, o rosto dela assim ficou tão lindo e Adão beijou-a de uma tal maneira, que anjos e Tronos pelo espaço infindo qual rompe a catadupa prisioneira, as seis asas de azul e d'ouro abrindo, fugiram numa esplêndida carreira. Alguns, pousando à próxima montanha, queriam ver de perto os condenados da dor fazendo uma alegria estranha. E ante o rumor dos ósculos dobrados, todos queriam punição tamanha, ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados... Luiz Guimarães Leia A visão da época:  http://carvalhoaldo.blogspot.com.br/